Há gênios da bola que sempre jogaram bem. Talvez tenham nascido fazendo embaixadinha e, antes do último suspiro, provavelmente dão dois ou três chutes numa pelota.
Há pernetas que nunca tiveram uma relação das mais amigáveis com a esfera de couro. Para ser honesto: trata-se de figadal inimizade. Nunca se deram, nunca se falaram.
Entre esses dois extremos, há uma zona cinzenta ocupada pela maioria dos jogadores. E em algum lugar, nessa 'faixa da mediocridade', reside uma figura clássica do futebol: o craque de uma temporada.
Ele joga bem um, talvez dois ou três campeonatos, mas depois seu talento desaparece. Some de vez. Em geral, é visto como um vilão, uma fraude, algo do gênero. Ganha com facilidade apelidos como "mascarado" ou "pipoqueiro", entre outras alcunhas tradicionais do esporte bretão.
Mas isso é uma grande injustiça. O "craque de uma temporada" merece nosso respeito. Sim, merece. Não devemos levar tão ao pé-da-letra esse negócio de 'futebol arte'.
Sim, o 'futebol arte' é uma maravilha. Eu também gosto. Mas isso não quer dizer que a carreira de um jogador seja comparável à de um legítimo 'artista'; ou seja, às vezes seu talento está restrito a determinadas fases ou momentos. Mas isso não faz deles maus futebolistas.
O futebol arte continua lindo e admirável, mas talvez a 'rotatividade' dos craques é maior do que gostaríamos. Simples assim.
Fulano de Tal, que carregou seu time nas costas e garantiu um campeonato brasileiro, não joga no ano seguinte um décimo do que jogou na temporada anterior. Mas e daí? Ele que não jogue mais, paciência!, mas merece ser lembrado como um grande jogador.
O erro não é deles, mas sim nosso, pois insistimos nos "craques de uma temporada", como se o talento fosse ressurgir das cinzas. Somos nós que apostamos, nós que acreditamos, nós que devotamos fé aos ex-craques e neo-pernetas.
Na boa, a culpa é nossa.
Eles estão lá, agradecendo aos céus por algum contrato milionário, fazendo o possível para manter-se em campo. Queriam que eles fizessem o quê? Somos nós que lhes oferecemos uma dinheirama para jogar, não podemos esperar que simplesmente recusem.
Há treinadores - e até dirigentes - que se consideram dotados de talentos 'mediúnicos'. Eles supõem que, sob sua batuta, aquela estrela apagada novamente se acenderá. E assim, seguindo esse raciocínio que mistura fé e prepotência, os treinadores e/ou dirigentes garantem ao "craque de uma temporada" uma carreira de vários anos - quando o correto seria ter jogado, no máximo, uns dois aninhos.
A culpa é toda nossa. Somos nós que insistimos na 'eternidade do futebol', como se o talento futebolístico fosse comparável à maestria artística de algum pintor, músico etc.
Se alguém aqui acha que estou falando bobagem, vejamos os exemplos mais próximos de nossa realidade. Quem aqui, mesmo não sendo dos melhores, nunca jogou muito bem numa pelada? Sim, pois é... Ou então, sei lá, quem nunca viu aquele perneta jogar feito um demônio em um único jogo?
Depois, claro, tudo volta ao 'normal'. Mas em um ou dois jogos, todos talvez num único dia, o perna-de-pau estava inspiradíssimo, fez de tudo um pouco, inclusive vários golaços.
Isso é normal, normalíssimo. Acontece nas peladas de bairro, acontece também nos grandes campeonatos. E as boas fases podem ser tanto de um único dia quanto de toda uma temporada. O importante é que sempre (sempre! sempre!) elas acabam.
Alguns treinadores confundem talento com obstinação, e acreditam que conseguirão reacender uma estrela apagada. Mas os ótimos técnicos, ótimos de verdade, sabem muito bem quando o craque já rendeu tudo que podia.
Mas, repito, não devemos tratar os "craques de uma temporada" como se fossem vilões. Nada disso. Eles são gênios, sim, muito embora sua genialidade tenha ficado restrita a curtíssimo espaço de tempo.
E a culpa é toda nossa por tentar atribuir eternidade ao que é obviamente efêmero. Não é justo culpá-los pela nossa própria crendice e/ou prepotência.